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O luto não se cura, mas cuida-se: como virar a página numa história com início infeliz?

  • há 7 horas
  • 3 min de leitura

Foto: Manuel Roberto

Notícia de Público


Quem entra nos Albergues do Porto carrega uma colecção de perdas: casa, família, emprego, saúde. Também mortes. Exposição mostra histórias de pessoas sem abrigo. Um exercício de “empatia e compaixão”


perda era o elefante na sala dos Albergues do Porto. Quem chega à associação, leva na bagagem uma “colecção de perdas” – não só a da casa, razão da situação de sem abrigo, mas as antecessoras dessa: emprego, saúde, família, mortes. Os profissionais, por outro lado, tanto convivem com as dores dos utentes como com a morte de alguns. Se os lutos habitam a instituição, como poderia quem nela mora e

trabalha lidar melhor com eles?


Carmo Fernandes, directora-geral dos Albergues do Porto, identificara o problema há muito. Sentia necessidade de encontrar respostas mais concretas que ajudassem utentes e equipa a enfrentar situações comuns. Uma cama vazia após uma morte, o funeral de alguém sem família ou rede, ter ou não um acto simbólico de despedida?


Com a Compassio, associação dedicada a construir comunidades mais compassivas para acompanhar momentos difíceis (como a morte, luto, doenças ou solidão), os albergues encararam o assunto. A exposição A Perda Cuida-se, na galeria Alberg’ART até 6 de Junho (Rua dos Mártires da Liberdade, 239, segunda a sábado, das 15 às 18 horas), mostra dez histórias de perda (mas também de esperança) de pessoas em situação de sem abrigo alojadas nos albergues. “Um exercício de reflexão pessoal, empatia e compaixão.”


Não foi exactamente como planearam. Quando fizeram a candidatura ao orçamento colaborativo da junta do centro histórico – cujo apoio lhes foi concedido –, as instituições previam um conjunto de sessões com utentes e técnicos da casa e o desenho de cartazes com os rostos dos primeiros, com uma frase sobre a história delas. As perdas, porém, carregavam digestões difíceis. A resistência foi maior do que supunham. E o plano mudou.


Alargaram o tema para o cuidado – o que tiveram ou não e aquele que ainda procuram, falando de perdas, mas valorizando a história pessoal para lá delas. Em 20 sessões explorou-se a compaixão e autocompaixão a partir do mote “a minha vida dava…”. Mariana Abranches Pinto, fundadora da Compassio, resume a ideia: “Como consigo olhar para a minha história e virar a página, encontrar esperança.” De cada história, os criativos Luís Veiga e Teresa Rebelo fizeram um livro. Ou simularam um. Os dez cartazes da exposição mostram a capa de um livro, com título e autoria, e um pequeno texto – os nomes dos “escritores” são falsos, tudo o resto é verdadeiro. Cecília Soares foi vítima de violência doméstica durante mais de 15 anos. Teve um aborto por causa dos maus tratos, uma outra gravidez depois. A filha deu-lhe esperança, mas a violência nunca parou. Separou-se, perdeu a capacidade para pagar as contas, a criança foi-lhe retirada. A família não sabe que mora nos albergues. As visitas da filha e a oração acalentam-lhe os dias. Raul Faria nasceu numa família rica da Foz. Quando o pai morreu, tudo desmoronou. Venceu um cancro, nunca recuperou a vida que teve. A música é o seu refúgio. O pai de Rodrigo Cerqueira morreu-lhe nos braços, a mãe faleceu três anos

depois, o irmão a seguir. O álcool fez-se escape. Perdeu o emprego. Ainda acredita na recuperação.


Leia a notícia na integra: O Público

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